A física italiana, Fabiola Gianotti, esteve uma década à frente do Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), em Genebra. “É importante que a ciência continue a manter pontes”, diz sobre cooperação e paz.
Jornal Público 16 de maio de 2026 – Teresa Firmino (Texto) e Nuno Ferreira Santos (Fotografia)
Na história do Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), criado em 1954 e que mantém até hoje os seus grandes aceleradores de partículas na fronteira franco-suíça, na zona de Genebra (Suíça), Fabiola Gianotti tornou-se a primeira mulher a ascender a directora-geral. Foi em 2016 e antes, em 2012, a física italiana tinha sido um dos rostos principais do anúncio da deteção do bosão de Higgs, no acelerador de partículas Large Hadron Collider (LHC, na sigla em inglês, inaugurado em 2008, num túnel em forma de circunferência de 27 quilómetros).
A 8 de Maio, Fabiola Gianotti veio a Lisboa para a celebração dos 40 anos da criação do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), importante para o desenvolvimento desta área científica no país e que coincide igualmente com os 40 anos da adesão de Portugal como Estado-membro ao CERN. Na palestra que deu em Lisboa sobre a “Investigação no CERN e muito mais”, Fabiola Gianotti mostrou uma fotografia do momento em que a bandeira portuguesa foi hasteada após a adesão ao CERN, onde se vê, entre outros, José Mariano Gago, que viria a ser ministro da Ciência.
O próximo grande acelerador de partículas da Europa, o Future Circular Collider (FCC), que será instalado num túnel em circunferência com 90 quilómetros, a uma profundidade média de 200 metros, foi um dos temas de conversa. Nem de propósito, já que nos próximos dias o projecto entrará em consulta pública na Suíça e em França, até outubro. “O FCC é um projecto arrojado para o futuro da humanidade em termos de conhecimento”, diz.
Como caracteriza os 40 anos de Portugal no CERN? Portugal deu contributos muito importantes para o CERN nos últimos 40 anos, graças a uma comunidade científica forte, a uma tecnologia forte, a uma indústria forte, que contribuíram para construir os instrumentos do CERN. Os cientistas portugueses têm sido muito ativos em todas as experiências principais do CERN. Mais recentemente – no LHC, onde estão envolvidos no ATLAS e no CMS [duas das principais experiências do acelerador] –, estiveram na linha da frente da descoberta do bosão de Higgs em 2012. Portanto, é uma participação bem-sucedida.
O modelo do LIP – uma instituição que apoia e promove a física de partículas em Portugal, em particular no CERN, mas não apenas – é um bom modelo, que outros países olham com interesse. Sem José Mariano Gago e Gaspar Barreira [dois dos principais promotores da adesão ao CERN], e sem a geração mais jovem, como Mário Pimenta e muitos outros, a física de partículas em Portugal não teria tido tanto sucesso em todas as suas facetas, não só na investigação, mas também na tecnologia, nas aplicações, na formação, no ensino.
José Mariano Gago sempre me impressionou pela sua visão e, ao mesmo tempo, o seu pragmatismo, amor pela ciência e amor por Portugal e pelo CERN. Gaspar Barreira, com quem tive a oportunidade de interagir com mais frequência, era uma pessoa fantástica, tão dinâmica e tão apaixonada pela ciência. Estas duas personalidades são extraordinárias.
E que obstáculos enfrentou Portugal ao longo destes anos? Tal como em todos os países, o principal obstáculo é conseguir financiamento suficiente para a investigação, em particular para os jovens, e conseguir lugares suficientes para os jovens numa perspetiva de longo prazo e não os empurrar para o sector privado. Isto é comum a muitos países, não é específico apenas de Portugal.
Esse obstáculo é ainda maior hoje? Hoje, em geral, no mundo dá-se cada vez mais ênfase à investigação aplicada de curto prazo, enquanto a investigação fundamental tem geralmente um impacto a longo prazo. Pode ter um impacto absolutamente revolucionário, se pensarmos na mecânica quântica, na relatividade geral, que quando foram desenvolvidas eram consideradas conhecimentos inúteis. No entanto, sem a mecânica quântica a eletrónica moderna não existiria e o GPS não funcionaria sem o conhecimento da relatividade. A investigação básica – a investigação fundamental – é extremamente importante para um futuro sustentável da sociedade. Mas, em geral, no mundo actual a ênfase é cada vez mais colocada na aplicação imediata.
A investigação fundamental também traz aplicações imediatas, porque os nossos objetivos científicos, por exemplo no CERN, são tão ambiciosos que temos de desenvolver muitas tecnologias novas para os alcançar. E essas tecnologias encontram aplicação na sociedade. Em particular, Portugal está muito ativo na aplicação médica da física de partículas, desde os isótopos radioativos até à imagiologia médica. Embora haja aplicações a curto prazo, ainda há mais a longo prazo.

Foto – Fabiola Gianotti no Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), em Lisboa Nuno Ferreira Santos
Está-se a ter essa discussão sobre a investigação aplicada em relação ao próximo Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia [2028-2034].
Sim, embora o financiamento proposto [para o próximo programa de investigação científica] tenha duplicado em comparação com o que temos actualmente. Para as grandes infra-estruturas de investigação, o financiamento proposto é quatro vezes superior ao actual. Assim, a Comissão Europeia tem a intenção de financiar a investigação, tanto a aplicada como a fundamental. Mas é claro que, neste momento, só dispomos da proposta da Comissão. Ainda não foi aprovada pelos Estados-membros da União Europeia.
Nos seus dez anos como directora-geral do CERN, até Dezembro de 2025, que pontos altos e baixos destacaria?
Graças ao entusiasmo e ao apoio da incrível comunidade do CERN – que consiste em mais de 17.000 pessoas de todo o mundo, de mais de 110 nacionalidades –, conseguimos resultados excelentes com o LHC. Desde a medição do bosão de Higgs com precisão à descoberta de muitas novas partículas compostas e à exploração de novos cenários da física para além do modelo-padrão (a física que conhecemos actualmente), até ao impacto dos raios cósmicos na formação das nuvens. Temos um programa muito rico, que não é apenas o LHC.
Além disso, fizemos muitos progressos na actualização do LHC para o LHC de alta luminosidade, com a aprovação do Conselho [do CERN, o órgão máximo de decisão, composto por delegados de todos os Estados-membros] em 2016, o primeiro ano em que fui directora-geral. Nos próximos anos, vamos instalar o LHC actualizado e a actualização do ATLAS e do CMS para funcionarem com maior luminosidade.
E lançámos os alicerces para o futuro do CERN com o estudo de viabilidade do FCC, que ainda não foi aprovado, mas que a comunidade europeia, e não só, classifica entusiasticamente como o melhor projecto para o futuro da física de partículas.
Quanto custará o Future Circular Collider?O custo deste acelerador de partículas é de 15 mil milhões de francos suíços [16.400 milhões de euros], repartidos por 12 anos. A maior parte será coberta pelo orçamento anual regular do CERN. Mas esperamos também a contribuição de países não-membros, que não contribuem para o orçamento do CERN, como os EUA – através do Departamento de Energia –, o Japão e o Canadá, parceiros históricos e que têm grandes comunidades no CERN.
Também temos trabalhado com a Comissão Europeia e conseguimos que o FCC fosse classificado como o primeiro de 11 possíveis projectos Moonshot [projectos capazes de passar rapidamente da investigação para a aplicação prática] no próximo Quadro Financeiro Plurianual. Conseguimos ainda obter mil milhões de dólares de doadores privados da Europa e dos EUA. Há trabalho a fazer, mas estamos bem.
Disse numa entrevista ao PÚBLICO em 2019 que esperava os EUA viessem a contribuir para o FCC. Só que o mundo está muito diferente hoje, incluindo a
Administração Trump.Os EUA, por exemplo, estão a contribuir agora para o LHC de alta luminosidade e para a actualização do ATLAS e do CMS. Honraram plenamente os seus compromissos. Na comunidade das 17.700 pessoas que fazem parte do CERN, cerca de 2000 vêm dos EUA, pelo que os EUA têm grande interesse nos aceleradores de partículas de alta energia do CERN. Existem boas premissas para continuar esta bela colaboração, que é recíproca, porque o CERN e a Europa também contribuem para um projecto nos EUA, que se chama Long-Baseline Neutrino Facility, no Fermilab [perto de Chicago].
Trata-se, portanto, de uma reciprocidade.
Além dos EUA, o Japão e a China também estão envolvidos no LHC e na actualização do LHC de alta luminosidade. Quando se constroem os melhores instrumentos que conseguimos, isso atrai a comunidade mundial. Não vejo por que razão isso deve mudar.
Como explica o interesse da Administração Trump na física de partículas? Depende dos campos da ciência. A investigação fundamental não sofreu tantos cortes. O orçamento do Presidente [dos EUA] era mais baixo do que no passado, mas depois o Congresso voltou a aumentá-lo. Claro que o clima de incerteza não ajuda, em particular para os jovens, mas por enquanto devo dizer que não vemos um impacto negativo no nosso
campo. Trata-se de física fundamental e, de momento, não vemos quaisquer sinais que justifiquem uma forte preocupação.
Qual é a cronologia para o desenvolvimento do FCC?Acabámos de concluir o estudo de viabilidade. Prevê-se que o projecto seja aprovado pelos Estados-membros do CERN antes do final desta década, ou seja, em 2028 ou 2029. A construção poderá começar no início da próxima década e a operação em meados da década de 2040. Não nos esqueçamos de que o LHC, com a fase de alta luminosidade, estará a funcionar até 2041.
Por isso, este acelerador de partículas, que será construído em paralelo, tornar-se-á operacional alguns anos depois do LHC.
A China e o Japão ainda tencionam construir os seus aceleradores de partículas?Na China, tem-se pensado em construir um acelerador de partículas semelhante ao FCC. Neste momento, não obteve financiamento, mas daqui a alguns anos irão candidatar-se.
Por isso, temos de aproveitar esta oportunidade para o construir um na Europa. O Japão tem estado mais concentrado num acelerador linear, mas actualmente não está a avançar.
Não destacou os pontos baixos como directora-geral do CERN. Quais foram?
O ponto mais baixo é que, nos últimos dez anos, assistimos a um período de crise a nível mundial: a pandemia de covid-19, a invasão da Ucrânia, o preço elevado da electricidade e a inflação. O CERN não ficou imune a isso, pelo que tivemos de enfrentar a pandemia de covid-19, tivemos de enfrentar a pressão financeira. Mas não houve qualquer surto de infecção por covid-19 no local, pelo que conseguimos manter o laboratório aberto, mesmo com o mínimo de pessoal durante algumas semanas. Em relação à pressão financeira, conseguimos pôr em prática uma série de medidas de mitigação e os Estados-membros do CERN ajudaram com uma contribuição adicional de 74 milhões de francos suíços. Por isso, correu tudo bem, mas claro que foram dificuldades.
Mencionou a invasão da Ucrânia pela Rússia. A Rússia viu o seu estatuto de observador no CERN ser suspenso em 2022: esse foi um dos pontos baixos?
A suspensão do estatuto de observador foi imediata – a Rússia deixou de poder vir ao Conselho do CERN observar os trabalhos –, mas a colaboração com institutos russos continuou durante mais dois anos. Depois, foi interrompida porque a invasão continuou: em 2024, o acordo de colaboração com os institutos russos expirou e não foi renovado.
Os cientistas russos continuam hoje a colaborar com o CERN?Não se trata de uma questão de passaporte. Os cientistas russos em Portugal, nos Estados Unidos ou em Itália trabalham normalmente no CERN. Os cientistas russos afiliados em institutos russos – excepto os que estão no Instituto Comum para a Investigação Nuclear em Dubna – não colaboram com o CERN.
Há ainda a situação em Gaza e o ataque recente ao Irão [pelos EUA e por Israel, um dos Estados-membros do CERN].Temos cientistas iranianos, israelitas, palestinianos a trabalhar no CERN.
Mas tem havido apelos ao boicote a Israel no CERN. Qual é a sua opinião sobre isso?Penso que é importante que a ciência continue a manter pontes. É bom que haja instituições onde as pessoas possam continuar a trabalhar em conjunto, apesar das relações políticas entre os seus países.
Porquê um fracasso? Não acho que seja um fracasso. Pelo contrário, é muito bom ter uma instituição como o SESAME, em que o seu Conselho se reúne e todas estas pessoas e os representantes desses governos se reúnem à volta da mesa de discussão. Isto é realmente positivo, tendo em conta o que se está a passar a nível político. Por isso, é muito bom continuar a ter uma instituição como o SESAME, ou como o CERN, onde as pessoas podem trabalhar em conjunto.
Falemos do SESAME, o sincrotrão do Médio Oriente. Um dos objectivos desta organização internacional [com sede na Jordânia] era promover a paz na região, como o CERN quando foi criado a seguir à da II Guerra Mundial. Com o que se passa com o Irão, Israel e a Autoridade Palestiniana, todos membros do SESAME, esta organização é um fracasso?
O CERN nasceu para promover a paz. Antes de mais, nasceu para trazer de volta a excelência científica à Europa – esse foi o primeiro objectivo. E, depois, para promover a colaboração pacífica entre os países europeus. E agora o CERN tornou-se um laboratório que está a juntar o mundo inteiro. A sua influência estende-se muito para lá da Europa.
O SESAME também visava isso.Encontra-se numa região particularmente difícil e delicada, pelo que espero que continue a juntar os países. É bom sinal que haja pelo menos um local nessa região onde as pessoas se reúnam.
E está a trabalhar agora?
Penso que o SESAME está a operar. Não tenho notícias recentes sobre a operação das instalações, mas sei que o Conselho do SESAME se reuniu recentemente.
Quais são as grandes questões da física ainda em aberto, que serão abordadas no Future Circular Collider?Em primeiro lugar, o bosão de Higgs continua a ser uma partícula muito misteriosa relacionada com os primeiros instantes do Universo – que ainda não compreendemos totalmente – e talvez também com o destino do Universo e com muitas questões hoje em aberto na física fundamental. Estudar o bosão de Higgs com uma precisão muito elevada, para além do que o LHC e o LHC de alta luminosidade podem fazer, é uma necessidade, porque esta é a partícula elementar mais exótica que alguma vez descobrimos.
Além disso, há muitas outras questões em aberto, como a matéria negra, a energia negra, a assimetria matéria-antimatéria. E não há um único instrumento, uma única abordagem, que possa responder a todas estas questões. Por isso, temos de utilizar todas as abordagens possíveis que a humanidade desenvolveu, desde aceleradores de partículas à física de astropartículas, entre outras, para tentar responder a estas questões
importantes e interessantes. O facto de 95% do Universo ser escuro para nós é bastante constrangedor, mas também muito interessante. Temos de aumentar o nosso conhecimento do Universo.
